Opinião

Futuro

1. Estado da Região

Esta semana, soubemos que o défice dos Açores em 2025 foi revisto em alta, para mais de 305 milhões de euros, perto de 5% do PIB regional. Para além do défice, também a dívida pública regional aumentou a um ritmo galopante. São cerca de mais 400 milhões de euros num só ano. Nunca os Açores deveram tanto. E no primeiro trimestre de 2026 bateu-se um novo recorde.

Há muitos entre nós que acham que estes são apenas números. Não são. Esqueçamos as regras sobre a boa gestão pública. Esqueçamos mesmo os critérios de Maastricht. São serviços públicos que falham, mais dívida a fornecedores privados e incapacidade de programar o futuro e alavancar a nossa capacidade de crescer e empregar melhor amanhã.

E convém não deixar esquecer: este é o Governo Regional que prometeu endividamento zero! Se fosse mais uma promessa que fica apenas no papel, menos mal. Mas neste caso, como em tantos outros – saúde, transportes, educação – quem vai pagar a dívida são precisamente os açorianos e já não apenas os adultos de hoje, mas também as crianças. Era bom que nos Açores não lhes limitássemos o futuro.

2. Estado do mundo

António Guterres despediu-se esta semana da Assembleia Geral da ONU. Visivelmente triste e dez anos após o início do seu mandato, deixou um diagnóstico negro, porque realista.

A comunidade internacional a que tantos almejaram e outros tantos construíram está hoje estilhaçada. Guerra, direito internacional descartado, divisões geopolíticas mais fundas, confiança perdida são sintomas de um sistema internacional que sofre hoje os malefícios da história do poder. Quem o tem? A quem é negado? Como se usa?

Guterres foi aplaudido de pé, mas os aplausos não escondem o essencial: a sua ONU termina a pedir cooperação e apoio a quem já decidiu que não precisa dela.

No mesmo palco, Trump fez o de sempre. Acusou a ONU de servir uma agenda de burocratas globalistas, atacou o Tribunal Penal Internacional e ameaçou novamente “aniquilar” uma nação. Sobre o seu papel na escalada de preços do barril de petróleo que hoje conduz milhões à fome e que põe outros milhões a contar tostões para chegar ao fim do mês, nem uma palavra.

A velha ordem mundial não morreu num dia. Morre todos os dias.

3. Estado da democracia

Não pode haver sistema internacional forte com democracias frágeis. Olhe-se para a Alemanha. A 6 de setembro, a AfD venceu na Saxónia-Anhalt com 43,8%. A 20, ganhou em Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental com 37,9%, mais do dobro de há cinco anos. Em Berlim, venceu a esquerda radical do Die Linke. O centro e a responsabilidade esvaziam-se em favor dos dois extremos. O chanceler Merz falou de um veneno autoritário que se infiltra na sociedade. Tem razão. Mas o veneno não entra sozinho. Entra quando as instituições deixam de dar resposta. Quando a política deixa de explicar. Quando o poder deixa de prestar contas.

Em Portugal estamos também, cada vez mais, assim. Um primeiro-ministro que não aceita perguntas, ao ponto de ter o Sindicato dos Jornalistas a pedir às redações que não enviem jornalistas a declarações sem perguntas. Um partido que joga na erosão dos órgãos de investigação e criminais do país, apenas para espalhar o caos e na educação e saúde, Ministros que não vêm, não ouvem e não querem saber.

A democracia liberal precisa de escrutínio e crítica, da mesma forma que precisa de resultados e respostas. Sem essas o que resta é a hipoteca do nosso futuro.

4. Preparar o futuro

Reuni esta semana com a Associação “Desliga”, para debater a nova proposta legislativa comunitária para fazer face a um dos perigos do nosso tempo: a adição dos mais novos aos ecrãs e o papel de plataformas que monetizam e lucram com a atenção dos mais frágeis. Este é um caminho que temos de percorrer juntos, enquanto sociedade, juntando, pais, comunidade educativa, jovens, poderes locais e regionais em prol da proteção dos mais jovens.

Em Lisboa, participei também num debate no evento “Portugal Seafood” sobre os desafios da pesca e da comercialização em Portugal. Perante pressões cada vez maiores a nível internacional e preços galopantes dos fatores de produção, também aqui é do futuro das pescas que se trata.

 

Deputado do PS/Açores no Parlamento Europeu